segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A nova direita portuguesa, o Correio da Manhã e a aceitação do país


Há duas décadas os blogues vieram permitir um exercício público de opinião livre das rotinas da imprensa tradicional. A liberdade e o individualismo favorecidos pelo novo medium e, claro, as décadas entretanto passadas sobre o 25 de Abril e o Estado Novo estimularam o surgimento de uma nova direita no espectro político português. Esta direita — educada, culta, cosmopolita, frequentemente com sensibilidade estética e artística, aparentemente menos preconceituosa e mais tolerante (com ferozes excepções) — foi ganhando espaço mediático no país e fazendo sair do armário (no sentido ideológico) alguns intelectuais mais velhos que por ai pairavam sem pouso doutrinário totalmente definido, receosos de dizerem o que realmente pensavam ou sem certezas quanto àquilo que realmente pensavam (ou desejavam pensar). Este esclarecimento ou esta «normalização» política foram positivos, por permitirem que algumas pessoas assumissem ideias de direita sem receio de serem conotadas com o fascismo salazarista. A democracia e o debate político cresceram.

Contudo, relegando alguma da sua formação cultural mais esclarecida e universalista, uma parte desta nova direita cedo se deixou embevecer pelo pragmatismo, pelo cinismo, pelo messianismo ou simplesmente pela bravata neoliberal que nos EUA vinha dominando o Partido Republicano. (Há um adolescente lado cowboy nesta direita e no seu frequente louvor dos duelos e bengaladas queirosianas ou oitocentistas, com correspondência num certo baronato socialista.)
Os primeiros sinais disso foram, logo no início, o espantoso apoio à invasão do Iraque em 2003. Se fosse a esquerda a demonstrar tal grau de ingenuidade e crendice (ou de oportunismo), teria sido simplesmente demolida (e bem) pelo pensamento sofisticado da nova direita. No entanto, ainda hoje várias figuras dos blogues (agora nos jornais, na televisão ou nos partidos) se revelam incapazes de reconhecer o erro cometido num momento que foi determinante na definição do mundo que hoje temos.

Mais recentemente, esta nova direita, já constituída pelos bloggers e pelos «velhos» saídos do armário, encontrou no Correio da Manhã o seu fetiche de mundivisão, o seu oráculo político-religioso. Com esta direita intelectualmente desenvolvida, o jornal deixou de ser um órgão sensacionalista, um mero tablóide a fazer o que os tablóides fazem, para passar a ser o órgão que melhor informa sobre o que realmente se passa no país, o que melhor revela o que é Portugal: a sua corrupção política, os seus crimes, a sua violência quotidiana — a podridão nacional, em suma.

Poder-se-ia pensar que havia neste contentamento com o desvelar da negra alma lusa um desejo de correcção, de purga, de construção de um país mais honesto, menos violento, mais justo, mas isso são pensamentos de esquerda. A nova direita portuguesa não escreve no Correio da Manhã nem cita o Correio da Manhã para que acordemos, para que nos vejamos ao espelho e nos envergonhemos com o que somos. Nada disso. Na verdade, a nova direita quer que conheçamos o país para que o aceitemos como é. Tirando um ou outro caso político desenvolvido no jornal, em que a imparcialidade é conveniente ao próprio statu quo da nova direita portuguesa (nos outros casos geralmente cala-se ou veste-se de virgem), e, portanto, é aí conveniente o apelo à justiça, à moral, ao apuramento da espécie, a nova direita não fica realmente indignada com a imoralidade, a injustiça, a violência, os crimes, a crueldade. Adoptam, alguns dos seus espécimes mais tendentes à literatice (como de resto o velho centro-esquerda), a atitude do aristocrata, espreitando das janelas altas do seu solar as ruas enlameadas, levemente horrorizados, mas apenas como introdução teatral à constatação inconsequente de que o país é uma choldra. Nos outros casos é simplesmente social-darwinista — se se sabe do lado certo da evolução. (Neste campo é comum observar-se como alguns jovens direitistas que saem de bairros, zonas ou grupos sociais deprimidos para o sucesso académico, económico ou intelectual se revelam os mais fervorosos na defesa não declarada de que é natural uma luta das espécies e temos portanto de ser duros na nossa vida, nada de mariquices.)

Não obstante fingir-se por vezes paladina de um povo essencialmente «bom e honesto» que só existe na sua cabeça e que, sem rir, tenta fazer coincidir com o leitor comum do Correio da Manhã, a nova direita portuguesa tem, nalguns casos apenas porque uns quantos pensadores de eleição o tiveram, um crónico pessimismo antropológico (predisposição que, em minha opinião, é aliás altamente aconselhável a qualquer pessoa sensata), e conclui, cinicamente, mas sem verdadeiramente o afirmar, que o que importa é então que conheçamos o país através do Correio da Manhã —não que nos indignemos com o país que o Correio da Manhã revela. Aceitarmos o país não nos resolve os problemas, mas não é isso que está em causa. O que está em causa é que há coisas a que chamamos problemas que são apenas características, meras constantes históricas e sociais. Se as aceitarmos, talvez nos possamos defender melhor delas (diz a direita quando é piedosa ou residualmente empática) ou, melhor ainda, talvez nos resignemos a conviver com elas.

Julgo que não há estudos universitários que analisem a estatística da opinião publicada (e devia haver), mas, consultando a Internet ou os jornais que por inércia vamos acumulando em casa (e para voltar a um assunto que me é caro), podemos chegar à conclusão de que a direita é mais veloz e prolixa a premir o gatilho contra os linchamentos de carácter por suposto assédio sexual do que o tem sido contra a violência doméstica — ou seja, o machismo violento e demasiadas vezes fatal. (De que, aliás, o seu Correio da Manhã quotidianamente nos informa.)

Seria errado propor que este desequilíbrio de opinião ou de ênfase acontece porque a direita se identifica mais facilmente com os impulsivos perpetradores da violência doméstica (ou com os alvos dos linchamentos revanchistas) do que com as vítimas de assédio, tantas vezes frágeis e impotentes, propícias a sucumbir na evolução das espécies. Não é isso. Acontece é que a violência machista, mesmo que sabidamente nefasta, é um continuum histórico, enquanto a «revolta feminista» é, precisamente, uma tentativa de quebrar o continuum histórico. E os conservadores sempre se incomodaram mais com as rupturas do que com as injustiças*.


* O mesmo se passa no plano económico, com as imoralidades actuais do capitalismo a merecerem menos indignação do que qualquer modesta proposta de contenção das desigualdades.

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